Purple Angel, um Carménère de tirar o chapéu.


O Purple Angel já provoca, de cara, uma pequena reflexão: o nome da uva não define seu vinho.

Hoje foi dia não só de degustar 4 vinhos, mas de observar, comparar, ir e voltar, perceber como o mesmo vinho pode contar histórias diferentes dependendo do ano, do clima e das escolhas feitas na sua vinificação.

Uma vertical de Purple Angel com as safras 2004, 2011, 2015 e 2021. Conduzida por Aurélio Montes - enólogo da Viña Montes - que nos deu uma verdadeira aula de Chile, de Carménère e de humanidade - tendo em vista os projetos sociais que rolam em paralelo, tornando a vinícola um exemplo de empresa sustentável.



O Purple Angel é um corte de Carménère de 2 vinhedos diferentes: Marchigüe e Apalta. Além de um “tempero” de 8% de Petit Verdot, também de Apalta, que entra no corte para trazer tanino e acidez.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção nas quatro safras foi a presença de muita fruta, chocolate, equilíbrio e elegância. E, para minha surpresa — e satisfação — zero pirazina.



As safras de 2004 e 2011 foram vinificadas com 20% de sangria, concentrando a relação entre matéria sólida e mosto, resultando em um vinho de maior estrutura, corpo e presença tânica. Já as safras de 2015 e 2021 não passaram por este processo.


Todos as safras passaram 18 meses por barrica, só que nas safras 2004 e 2011 100% do vinho passou por barricas novas, enquanto nas safras 2015 e 2021 o vinho passou também por barricas usadas, 20% e 30% respectivamente.

Resumão por safra:
2004
Ano quente. Resultando em um vinho encorpado, potente e bastante estruturado. Mas em função da idade podemos dizer que a potência se transformou em equilibro e complexidade.

2011
Ano mais frio. Vinho encorpado com notas mais presentes de especiarias, destaque para a pimenta-preta. É legal perceber como a temperatura do ano pode mudar a expressão do vinho. A fruta está lá, o chocolate também, mas há uma camada mais fresca que deixa o vinho particularmente interessante.

2015: meu preferido.
Ano com temperatura perfeita. Frutas negras no aroma, mais frescor e um toque mineral e floral.

2021
Ano mais frio, com mais chuva que o habitual, trazendo outra expressão ao vinho e notas aromáticas de ervas, como tomilho. O vinho está pronto, mas ainda tem muito tempo em garrafa pela frente. Basta saber se teremos a paciência de esperar.


O mais legal de uma degustação vertical não é escolher o melhor vinho, mas entender o que cada safra tem pra “dizer”.



Agradeço ao Pedro e ao Leo pelo convite e pela oportunidade de participar dessa experiência ao lado do Aurélio.

Santé!

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